Cronologia do Vinho do Porto e da região do Douro

Em meados de março de 2002 recebi um livro de presente do Cabral, "Porto - a aventura de um grande vinho", trata-se da história do vinho do Porto contada em quadrinhos, magnífico livro, com textos de Antonio Luís Ferronha e cronologia de Gaspar Martins Pereira, ISBN: 972-9881-49-7.

Nas ultimas páginas do livro têm a cronologia do vinho do Porto, resolvi reproduzir aqui no blog, na íntegra, poís não ví nada parecido na internet, é um bom material, espero que gostem.

BREVE CRONOLOGIA DO VINHO DO PORTO E DA REGIÃO DO DOURO

Séc. XX a.C. - Vestígios de grainhas (sementes de uva) de vitis em estações arqueológicas na região do Douro.

Séc. IV d.C. - Um lagar ("torcularium"), fragmentos de recipientes ("dolia") e outros vestígios do "casteilum" da Fonte do Milho (conselho da Régua) atestam o cultivo da vinha e a vinificação na época romana.

Séc. XI-XIII - Período de expansão do vinhedo.

1254 - Conflito entre o Rei D. Afonso 111 e o bispo do Porto D. Julião por causa do desembarque das mercadorias dos barcos que desciam o Douro. A sentença régia desse ano estabelece que dois terços dos barcos deveriam descarregar no Porto e um terço em Gaia.

1502 - D. Manuel manda demolir os canais de pesca no rio Douro para facilitar a navegação desde a Pesqueira até ao Porto.

1531 - Rui Fernandes exalta, na sua Descrição do Terreno em roda de Lamego.... os "vinhos de pé", aromáticos, que se produziam nas encostas do Douro.

1549 - João de Barros refere-se, na sua Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, aos vinhos de qualidade produzidos nas terras próximas do Douro e em Riba-Pinhão, que eram transportados para o Porto.

Séc. XVII - Diversos negociantes ingleses, flamengos e hamburgueses estabelecem-se no Porto, dedicando-se à exportação de vinhos do Douro.

1642-1648 - Protestos de produtores e negociantes de vinhos do Douro contra a Câmara do Porto por esta pretender aumentar os impostos sobre os vinhos de Cima-Douro que entravam na cidade.

1675 - Surge pela primeira vez a expressão "vinho do Porto", no Discurso sobre a Introdução das Artes no Reino, de autoria de Duarte Ribeiro de Macedo.

1678 - Aparecem os primeiros registros da Alfândega de Porto sobre a exportação de vinho do Porto para Inglaterra (408 pipas).

1688-1697 - Guerra da Liga de Augsburgo. Aumentam extraordinariamente as exportações de vinho do Porto para Inglaterra.

1703 - Tratado de Methuen.

1727 - Primeiro regulamento da Feitoria Inglesa do Porto, criada no século XVII.

1750-1755 - Grande crise no setor do vinho do Porto. Baixa de exportações e de preços.

1754 - Os negociantes ingleses decidem não comprar vinhos tio Douro, acusando os lavradores de falsificarem os vinhos.

1756 - Instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (10 de Setembro).

1757 - "Motim dos taberneiros", no Porto, contra a Companhia (23 de fevereiro). Devassa contra centenas de pessoas, 26 das quais são condenadas à forca e mais de uma centena ao degredo.

1757-1761 - Primeira demarcação da região vinhateira do Douro, ordenada pelo Marquês de Pombal.

1763 - É lançado o imposto de um real por quartilho de vinho consumido nas tabernas do Porto (desde 1756, só podia ser vendido vinho de ramo do Douro), destinando-se a receita às obras públicas na cidade do Porto.

1771 - Início de devassa no Douro para punir os contraventores das leis do Marquês de Pombal sobre os vinhos.

1776 - Prorrogada a vigência da Companhia por mais 20 anos.

1777 - Morre o Rei D. José. O Marquês de Pombal e Frei João de Mansilha (procurador da Companhia na Corte) são desterrados. A Companhia perde alguns privilégios, como o monopólio de comércio de vinhos para o Brasil.

1779 - Estabelecimento de relações diplomáticas luso-russas, A Companhia inicia o comércio direto de vinhos do Douro com a Rússia.

1781 - A Companhia estabelece uma Casa Portuguesa de Comércio em São Petersburgo.

1788-1793 - Demarcações Marianas, Alarga-se a área demarcada do Douro.

1791 - Prorrogada a vigência da Companhia por mais 20 anos.

1792 - Concluída a obra de destruição do Cachão da Valeira; Rio Douro navegável até Barca de Alva.

1795 - Concluída a construção da sede da Feitoria Inglesa ("Factory House") no Porto.

1799 - Grande exportação de vinho do Porto (quase 100 mil pipas).

1807 - A Companhia obtém exclusividade na venda de vinho do Porto engarrafado.

1809 - Segunda Invasão Francesa. Desastre na Ponte das Barcas. Lançado um novo imposto de 600 réis por pipa de vinho exportado para fazer face às despesas de guerra.

1810 - Tratado de comércio com a Inglaterra. Terceira Invasão Francesa.

1814 - Criada no Porto a British Association que substitui o British Club.

1815 - Prorrogada a vigência da Companhia por mais 20 anos.

1820 - Revolução liberal do Porto (24 de Agosto). Vintage de excepcional qualidade.

1821-1822 - As Cortes liberais introduzem alterações significativas na legislação vinícola. As Cortes mantêm o regime exclusivo, mas retiram da Companhia parte dos seus privilégios e funções.

1832 - Início do Cerco do Porto e da Guerra Civil. O Governo de D. Pedro cria uma Comissão para substituir a Junta da Companhia, ligada a D. Miguel, e retira da Companhia vários privilégios e direitos exclusivos. É liberalizado o fabrico de aguardentes.

1833 - No fim do Cerco do Porto, o general miguelista conde de Almer manda explodir os armazéns da Companhia, em Gaia, perdendo-se mais de 10 mil pipas de vinho e aguardente.

1834 - Extinção das Ordens Religiosas, com integração das suas propriedades aos Bens Nacionais. Abolição da legislação restritiva sobre o comércio do vinho do Porto e extinção dos poderes da Companhia. Fundação da Associação Comercial do Porto.

1838 - Restauradas, por 20 anos, a Companhia e a política restritiva dos vinhos do Douro e da barra do Porto.

1839 - O governo brasileiro aumenta em 50% os direitos de importação sobre vinhos portugueses.

1841-1843 - Grave crise no setor do vinho do Porto.

1843 - Legislação cabralista para os vinhos do Douro.

1844 - Joseph James Forrester publica "Uma ou duas palavras sobre Vinho do Porto", criticando as novas práticas de vinificação, o que gera uma viva polêmica no setor.

1848 - Joseph James Forrester manda gravar o mapa Douro Portuguez e Paiz Adjacente.

1852 - Fontes Pereira de Melo reduz os direitos de exportação e abole a taxa das guias de trânsito do vinho do Porto. A Companhia perde todas as suas atribuições oficiais. Cria-se a Comissão Reguladora da Agricultura e Comércio das Vinhas do Alto Douro. Início da invasão do oídio nas vinhas do Douro.

1863 - Data provável do aparecimento da filoxera no Alto Douro. Abolição dos vínculos. Apresentado ao Parlamento um projeto de abolição da legislação restritiva sobre o vinho do Porto.

1865 - Abolição da política restritiva dos vinhos do Douro e da barra do Porto. Regime de livre-câmbio.

1872 - Diversos conselhos do Douro estão infestados pela filoxera. O governo nomeia uma comissão encarregada de visitar a região e estudar a filoxera. Muitas terras e quintas à venda no Douro.

1873 - Início da construção da linha ferroviária do Douro.

1876 - Publicação de O Douro Ilustrado, do visconde de Vila Maior. Começa a utilizar-se o sulfureto de carbono para combater a filoxera. Inicia-se a plantação de vinhas com bacelos "americanos".

1878 - A linha do Douro chega à Régua. Portugal subscreve o Tratado da Convenção Internacional sobre a Filoxera, realizada em Berna.

1879 - O governo cria na Régua uma Comissão Central Contra a Filoxera.

1883 - É assinada a Convenção da União de Paris sobre a defesa das marcas de origem.

1885 - Surge uma Comissão de Defesa dos Interesses do Douro.

1887 - Conclusão da ligação da linha do Douro a Salamanca. Inaugurada a linha do Tua, desde Foz-Tua a Mirandela. Ramalho Ortigão publica John BuIl.

1888 - Fundação da Companhia Vinícola do Norte de Portugal.

1889 - Os exportadores de vinhos do Porto fecham os armazéns em protesto contra o contrato realizado entre o governo e a Real Companhia Vinícola. Fundação da Liga Agrária do Norte.

1891 - Portugal assina a Convenção de Madrid sobre a defesa das marcas de vinhos.

1893 - Surto de míldio nos vinhedos do Douro.

1896 - Morre, na quinta das Nogueiras, D. Antonia Adelaide Ferreira, a maior proprietária vinhateira do Douro, cujas quintas produzem mais de 1500 pipas de vinho. Nos armazéns e adegas de Gaia e do Douro de D. Antonia existem em estoque cerca de 13 mil pipas de vinho.

1900 - Portugal assina a Convenção de Bruxelas sobre a defesa das marcas de vinhos,

1901 - O governo de Hintze Ribeiro estimula a exportação do vinho do Porto, concedendo prêmios aos exportadores e reduzindo os direitos alfandegários; incentiva a criação de "adegas sociais".

1902 - Funda-se em Londres The Port Wine Shippers Association.

1907 - Ditadura de João Franco. Legislação regulamentadora da produção e comércio dos vinhos do Douro.

1908 - É corrigida a demarcação da zona do Douro, com base nas freguesias, ficando a região praticamente com os limites atuais. O governo autoriza a constituição de um Grêmio dos Exportadores de Vinho do Porto. Cria-se uma Comissão Agrícola e Comercial de Vinhos do Douro, de caráter interprofissional, composta por representantes do governo, dos viticultores e do Grêmio dos Exportadores. O governo cria ainda uma Comissão Inspetora da Exportação do Vinho do Porto, com sede na Alfândega, e a Estação Experimental Agrícola no Douro.

1909 - O tratado de comércio com a Alemanha assume a salvaguarda da marca de origem Porto e concede a Portugal o tratamento de nação mais favorecida. Motim de Alijó.

1910 - Proclamação da República (5 de Outubro).

1911 - Convenção de Washington para defesa das marcas de origem.

1914 - O Tratado com a Inglaterra provoca protestos de negociantes e viticultores por confundir o vinho do Porto com o vinho oriundo de Portugal.

1915 - Protestos no Douro. Motim de Lamego contra a assinatura do Tratado lusobritânico. A polícia investe contra os manifestantes, matando 11 pessoas.

1918 - Início de uma fase de crescimento das exportações de vinho do Porto. O governo de Sidório Pais estabelece nova legislação regulamentar da produção e comércio dos vinhos do Porto.

1920 - Tratados comerciais com a Bélgica e a Noruega para a defesa das marcas de origem.

1921 - Greves e manifestações violentas no Douro contra a entrada de vinhos do Sul na região do Douro e contra as fraudes praticadas em Gaia e na barra do Douro.

1923 - Portugal participa, em Paris, na Conferência dos Países Exportadores de Vinhos que recomenda a todos os Estados a proteção das denominações de origem e decide criar um Office International du Vin (criado em 1924).

1924-1925 - Anos de grande exportação de vinho do Porto, ultrapassando as 100 mil pipas anuais.

1925 - Agitação no Douro. Comícios liderados pelos "paladinos do Douro", exigindo a intervenção do governo na defesa dos interesses da região. Antão de Carvalho é presidente da Câmara da Régua. Convenção Internacional de Haia para proteção das marcas de origem.

1926 - Golpe de Estado (28 de Maio) e instauração da ditadura militar. Cria-se o Entreposto "único e privativo dos vinhos do Douro", em Vila Nova de Gaia, como extensão da região demarcada. A administração do Entreposto é atribuída à Comissão de Viticultura da Região do Douro. Perante os protestos dos negociantes, cria-se uma comissão mista para estudar a questão. Crise no setor do vinho do Porto. Demite-se a Comissão de Viticultura.

1927 - É alterada a administração do Entreposto, passando os exportadores a estar neste representados.

1928 - Agitação no Douro. Uma delegação de cerca de 800 viticultores desloca-se a Lisboa para exigir medidas do governo. O governo publica o modelo de certificado de origem do vinho do Porto.

1929 - O Ministro da Agricultura, Pedro Bravo, cria a Estação Vitivinícola da Régua. Antão de Carvalho preside de novo à Comissão de Viticultura. Os paladinos do Douro lançam o projeto de Lei de Salvação do Douro.

1931 - É exonerada a Comissão de Viticultura do Douro. Grave crise no setor do vinho do Porto. Baixam muito os preços do vinho do Porto pagos aos viticultores.

1932 - O projeto dos "paladinos do Douro" (Antão de Carvalho, Amílcar de Sousa, Torcato de Magalhães e outros), para fazer face à crise da região e do setor, conduz à criação da Federação Sindical dos Viticultores da Região do Douro - Casa do Douro, "organismo disciplinador e protetor da produção".

1933 - Completa-se o modelo corporativo do setor do vinho do Porto com a criação do Grêmio dos Exportadores, com funções de tutela sobre o comércio, e do Instituto do Vinho do Porto, com funções de cerificação da qualidade, de estudo e de promoção nos mercados externos.

1934 - É criada a Câmara de Provadores, integrada ao Instituto do Vinho do Porto. Realiza-se em Londres uma Convenção para a Defesa das Marcas de Origem.

1936 - É publicada a "lei da vindima", que estabelece as quantidades mínimas e máximas que podem ser exportadas por cada firma, de acordo com os estoques armazenados e as compras na vindima anterior. O governo reorganiza o Instituto do Vinho do Porto e autoriza novas plantações de vinhas no Douro, sob a supervisão do IVP e do Posto Vitivinícola da Régua.

1937 - A Casa do Douro dá início à elaboração do cadastro vitícola da região demarcada.

1945-1949 - Álvaro Baltasar Moreira da Fonseca elabora o "método de pontuação" que serve de base à distribuição do "benefício" na região demarcada do Douro.

1949 - Início do movimento cooperativo moderno na Região do Douro. A Casa do Douro elabora o documento "Bases de apoio para a constituição das adegas cooperativas".

1950 - Fundação da Adega Cooperativa de Mesão Frio.

1955 - Desenvolvimento do movimento das adegas cooperativas com a aprovação do "Plano das adegas cooperativas para a Região Demarcada do Douro".

1964 - Inicia-se a construção da barragem do Carrapatelo (1964-1971), a primeira no Douro português. Desaparecem do rio Douro os rabelos, que tradicionalmente asseguravam o transporte das pipas de vinho entre a região e os armazéns de Gaia.

1974 - Revolução de 25 de Abril. É extinto o Grêmio dos Exportadores de Vinho do Porto. Cria-se a Associação dos Exportadores de Vinho do Porto.

1979 - Grande crescimento das exportações de vinho do Porto, ultrapassando as 100 mil pipas (desde 1925, não se atingia esse montante); o movimento ascendente mantém-se na década seguinte.

1986 - É autorizada a comercialização direta do vinho do Porto a partir do Douro. Surge a Associação de Viticultores-Engarrafadores de Vinhos do Porto e Douro (AVEPOD).

1995 - Instalada a Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro (CIRDD).

1996 - Cria-se a Rota do Vinho do Porto.

2009 - Crise financeira mundial afeta mercado do Vinho do Porto.